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sábado, fevereiro 17, 2018

morte lenta


Ei-lo abandonado
Jazendo encalhado
Outrora navegante
Do nosso mar gigante

Jazz aqui adornado
Em lagoa pequena
Desta forma deitado
Que triste é, que pena.



sexta-feira, fevereiro 02, 2018

lamento para a língua portuguesa



"Não és mais do que as outras, mas és nossa,
e crescemos em ti. nem se imagina
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, mera aspirina,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vida nova e repentina.
mas é o teu país que te destroça,
o teu próprio país quer-te esquecer
e a sua condição te contamina
e no seu dia-a-dia te assassina.
mostras por ti o que lhe vais fazer:
vai-se por cá mingando e desistindo,
e desde ti nos deitas a perder
e fazes com que fuja o teu poder
enquanto o mundo vai de nós fugindo:
ruiu a casa que és do nosso ser
e este anda por isso desavindo
connosco, no sentir e no entender,
mas sem que a desavença nos importe
nós já falamos nem sequer fingindo
que só ruínas vamos repetindo.
talvez seja o processo ou o desnorte
que mostra como é realidade
a relação da língua com a morte,
o nó que faz com ela e que entrecorte
a corrente da vida na cidade.
mais valia que fossem de outra sorte
em cada um a força da vontade
e tão filosofais melancolias
nessa escusada busca da verdade,
e que a ti nos prendesse melhor grade.
bem que ao longo do tempo ensurdecias,
nublando-se entre nós os teus cristais,
e entre gentes remotas descobrias
o que não eram notas tropicais
mas coisas tuas que não tinhas mais,
perdidas no enredar das nossas vias
por desvairados, lúgubres sinais,
mísera sorte, estranha condição,
mas cá e lá do que eras tu te esvais,
por ser combate de armas desiguais.
matam-te a casa, a escola, a profissão,
a técnica, a ciência, a propaganda,
o discurso político, a paixão
de estranhas novidades, a ciranda
de violência alvar que não abranda
entre rádios, jornais, televisão.
e toda a gente o diz, mesmo essa que anda
por tal degradação tão mais feliz
que o repete por luxo e não comanda,
com o bafo de hienas dos covis,
mais que uma vela vã nos ventos panda
cheia do podre cheiro a que tresanda.
foste memória, música e matriz
de um áspero combate: apreender
e dominar o mundo e as mais subtis
equações em que é igual a xis
qualquer das dimensões do conhecer,
dizer de amor e morte, e a quem quis
e soube utilizar-te, do viver,
do mais simples viver quotidiano,
de ilusões e silêncios, desengano,
sombras e luz, risadas e prazer
e dor e sofrimento, e de ano a ano,
passarem aves, ceifas, estações,
o trabalho, o sossego, o tempo insano
do sobressalto a vir a todo o pano,
e bonanças também e tais razões
que no mundo costumam suceder
e deslumbram na só variedade
de seu modo, lugar e qualidade,
e coisas certas, inexactidões,
venturas, infortúnios, cativeiros,
e paisagens e luas e monções,
e os caminhos da terra a percorrer,
e arados, atrelagens e veleiros,
pedacinhos de conchas, verde jade,
doces luminescências e luzeiros,
que podias dizer e desdizer
no teu corpo de tempo e liberdade.
agora que és refugo e cicatriz
esperança nenhuma hás-de manter:
o teu próprio domínio foi proscrito,
laje de lousa gasta em que algum giz
se esborratou informe em borrões vis.
de assim acontecer, ficou-te o mito
de haver milhões que te uivam triunfantes
na raiva e na oração, no amor, no grito
de desespero, mas foi noutro atrito
que tu partiste até as próprias jantes
nos estradões da história: estava escrito
que iam desconjuntar-te os teus falantes
na terra em que nasceste, eu acredito
que te fizeram avaria grossa.
não rodarás nas rotas como dantes,
quer murmures, escrevas, fales, cantes,
mas apesar de tudo ainda és nossa,
e crescemos em ti. nem imaginas
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, vãs aspirinas,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vidas novas repentinas.
enredada em vilezas, ódios, troça,
no teu próprio país te contaminas
e é dele essa miséria que te roça.
mas com o que te resta me iluminas."

Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"




segunda-feira, janeiro 08, 2018

Luz oblíqua

Da luz oblíqua e fria do Inverno
Mãe esmerada de tímidas sombras
Coladas aos relevos de janelas
E platibandas das casas do Sul.



domingo, setembro 17, 2017

fomes aladas


Aquela gaivota enganada
Lá na ponta do quebra-mar
Esperando esperançada
Um barco de peixe a chegar
Mas só vem gente ociosa
É só turistas, que maçada
Pois trazem comida de prato
E a pobre gaivota nervosa
Desiste de tanto esperar
E vai ali roubar ao gato
.
.


segunda-feira, abril 10, 2017

É melhor morrer de pé do que viver de joelhos.
Emiliano Zapata




Uns preferem joelho de porco, outros pezinhos de coentrada

Eu como de ambos; logo, cago e depois não resta nada.



quinta-feira, janeiro 28, 2016

Ode repentina a um botão



Aquele botão rosado, tão desejado, de mamilo feminino e não de campainha em que toca e foge o menino, tornou-se de repente num outro contendo tamanha obsessão, das calças, malvado botão, teimando que não abria, e no meio da interior tormenta a que o corado botão da flor assistia, eu, agachado, arriava intensa caganeira, ali mesmo no pé da amendoeira.

F - in Colectânea de poesia kitschunga
2016.01.28

sábado, dezembro 26, 2015

Mar fervente




Ferve o mar como água numa panela
Que borbulha selvagem ao lume
É o Sueste que vejo da minha janela
E da maresia aquele suave perfume

domingo, junho 07, 2015

a Jorge Jesus

Será desporte ou maldade
Tua, ó salvador Jesus?
Que vais para Alvalade
Virando costas à Luz
Salvavas antes galinhas
Agora vais salvar gates
Pois, vai, arrasta a cruz
Enterra-a nas 4 linhas
Mas protege os tomates.

Efe. em 2015.06.06
colectânea de poesia kitschunga

segunda-feira, maio 25, 2015

fragrâncias do Verão

Fragrâncias do Verão
.
A menina como a sardinha
Quer-se da mais gostosa
A sardinha bem fresquinha
A menina de pito rosa
.

segunda-feira, abril 27, 2015

Coisas eternas

Soneto do amor e da morte

quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

Vasco Graça Moura in "Antologia dos Sessenta Anos" 


Vasco Graça Moura, (3 Jan. 1942 / 27 Abr. 2014)


quarta-feira, dezembro 17, 2014

foi-çe*


Nisto erramos: em ver a morte à nossa frente, como um acontecimento futuro, enquanto grande parte dela já ficou para trás. Cada hora do nosso passado pertence à morte.
Séneca




*(foi-se) - escrever errado ou escrever certo é indiferente pois que a ortografia da língua portuguesa perdeu todo o nexo que possuía por força dessa porcaria chamada AO90; portanto, que se foda...

sexta-feira, novembro 21, 2014

cartão salmão





Eu tenho um cartão
Com cor de salmão
De sóice do PSD
Mas em 2015, já
Não voto o costume
farto do estrume.

Qué’iss amamentar
PPP’s, banqueiros
E demais porcaria?
Posso lá sustentar
Tantos politiqueiros
Tanta rebaldaria?!

Com o País a errar
Exigiram-nos o pior
P’ro poder emendar.
Mas ficámos a nu
Eles vivendo melhor
Nós levando no cu.

Quer seja bom ou ruim
Hei-de votar diferente
Em 2015, lá no boletim
Vai cruz num emergente
Irei portanto, e assim
Apostar noutra gente.

Efe - 2014-11-21

Colectânea de Poesia kitschunga

quinta-feira, novembro 13, 2014

poema matemático

Quem 60 ao teu lado e 70 por ti, vai certamente rezar 1/3 para arranjar 1/2 de te levar para 1/4 e ter a coragem de te dizer: 20 comer.

 

sábado, maio 17, 2014

a draga preta



Ouvi agora senhores uma história de assorear

Contada nesta terra de grandes lobos-do-mar:

Lá vem a draga preta que tem muito que arranhar

Para remover tanta areia e o fundo aumentar

Em rias, rios, lagoas e praias do litoral

Arranha e chupa fundos em todo Portugal

Quereis vós senhores, os vossos fundos aumentar?

Então chamai a draga preta…

                               … que vos há-de arrebentar.

efe
Poesia kitschunga marítima



quarta-feira, abril 02, 2014

reestruturar... cautelar




.
Reestruturar ou não reestruturar, eis a questão: será mais nobre
Em nosso pecúlio perder dedos e anéis
Que a Europa, prestamista, nos exige,
Ou insurgir-nos contra um mar de credores
E sem luta, fenecer no suicídio? Morrer.. dormir: não mais.
Dizer que rematamos com um sono a angústia
E as mil caganças do homem português:
Morrer para dormir... é uma consumação
Que bem merece e desejamos com fervor.
Dormir... Talvez sonhar: eis onde surge o obstáculo:
Pois quando livres do tumulto da existência,
No repouso desse sonhar que ousamos
Devem fazer-nos hesitar: eis a suspeita
Que impõe tão longa vida aos nossos infortúnios.
Quem sofreria os spreads e a taxas do mundo.
E se reestruturar não se decide, fica o cautelar por decidir
Que em coisas da decisão, sonhamos, sonhamos… que não.


paráfrase ChicoEsperiana

quinta-feira, outubro 24, 2013

voando



Num voo simples, um penoso afastar
Como teus olhos alheados piscando
Nesse bater de asas que rasga o ar
E rasgado resto, moribundo, arfando.

domingo, setembro 15, 2013

Dia do Bocage



Nascido em Setúbal às três horas da tarde de 15 de Setembro de 1765, o poeta Manuel Maria de Barbosa l'Hedois du Bocage foi, possivelmente, o maior representante do arcadismo lusitano. Era filho do bacharel José Luís Soares de Barbosa, juiz de fora, ouvidor, e depois advogado, e de D. Mariana Joaquina Xavier l'Hedois Lustoff du Bocage, filha do Almirante francês Gil Hedois du Bocage que chegara a Lisboa em 1704, para reorganizar a Marinha de Guerra Portuguesa. Faleceu em Lisboa na manhã de 21 de Dezembro de 1805.

 

Lá quando em mim perder a humanidade

Lá quando em mim perder a humanidade
Mais um daqueles, que não fazem falta,
Verbi-gratia – o teólogo, o peralta,
Algum duque, ou marquês, ou conde, ou frade:

Não quero funeral comunidade,
que engrole sob-venites em voz alta;
Pingados gatarrões, gente de malta,
Eu também vos dispenso a caridade:

Mas quando ferrugenta enxada idosa
Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitáfio mão piedosa:

"Aqui dorme Bocage, o putanheiro:
Passou a vida folgada, e milagrosa:
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro."

sexta-feira, março 15, 2013

Vate dêtár, pá

Dizem da grande poesia
Que é arte do português
Mas o verdadeiro talento
O seu anunciado destino
É andar sempre cagado
Fazer da merda portento
Que ao limpar o intestino
Solta o poema encravado.

terça-feira, março 12, 2013

do grande Bocage



Arreitada donzela em fofo leito
.
 Arreitada donzela em fofo leito
Deixando erguer a virginal camisa,

Sobre as roliças coxas se divisa
Entre sombras subtis pachocho estreito.

De louro pelo um círculo imperfeito
Os papudos beicinhos lhe matiza;
E a branda crica nacarada e lisa,
Em pingos verte alvo licor desfeito.

A voraz porra, as guelras encrespando,
Arruma a focinheira, e entre gemidos
A moça treme, os olhos requebrando.

Como é inda boçal, perder os sentidos;
Porém vai com tal ânsia trabalhando,
Que os homens é que vêm a ser fodidos.

         Manuel Maria Barbosa du Bocage